Análise genética é capaz de predizer o risco de desenvolver Alzheimer

Modelo matemático considera diversas mutações no DNA e pode indicar se há maior vulnerabilidade para o desenvolvimento da doença

Análise genética é capaz de predizer o risco de desenvolver Alzheimer

Paloma Oliveto postado em 08/10/2021 06:00 Cientistas chegaram à pontuação de risco poligênico ao avaliar dados de mais de 30 mil voluntários: idosos são os mais atingidos - (crédito: Aizar Raldes/AFP) 

Em um dos maiores estudos já realizados sobre genética e Alzheimer, pesquisadores da Universidade de Glasgow, no Reino Unido, descobriram que a estrutura do cérebro é capaz de predizer o risco da doença muito antes que os sintomas significativos sejam evidentes. A partir de um banco de dados britânico de 32.790 adultos saudáveis e sem sinais de demência, os cientistas identificaram aqueles com maior probabilidade de desenvolver, no futuro, o mal neurodegenerativo. O artigo foi publicado na revista Neuropsychopharmacology. Uma das características da doença de Alzheimer é o comprometimento gradativo de capacidades cognitivas, sendo que a perda de memória costuma acometer os pacientes em estágios mais avançados. Também se sabe que, muitos anos antes de a enfermidade se manifestar, o cérebro pode sofrer alterações morfológicas, causadas, entre outros, pelo acúmulo de uma proteína chamada beta-amiloide e pela formação de emaranhados nos neurônios, provocados por anomalias no gene Tau. No estudo escocês, os pesquisadores utilizaram um modelo matemático que estima, a partir de variantes no DNA, o risco de uma pessoa desenvolver determinada condição, comparada a outra com perfil genético diferente. É a chamada pontuação de risco poligênico (PRP). Há tempos sabe-se que algumas mutações têm relação com o Alzheimer — a mais comum é o gene APOE-e4, que confere 25% de probabilidade da doença. Porém há muitas outras alterações que podem favorecer o mal neurodegenerativo. PUBLICIDADE Os pesquisadores, então, calcularam a pontuação de risco genético poligênico, tendo como base um grande número de mutações dos mais de 30 mil voluntários, para verificar se esse marcador tinha associação com diferenças na estrutura do cérebro, visualizadas pelo exame de ressonância magnética funcional, além do desempenho em testes de cognição. Antes de a perda de memória se instalar, os pacientes de Alzheimer exibem alterações como dificuldade de se orientar, problemas de linguagem e de atenção. A partir das três medidas — pontuação de risco poligênico, alterações cerebrais e desempenho em testes cognitivos —, os cientistas descobriram que um PRP mais alto está associado a um menor volume do hipocampo e a escores de cognição mais baixos. Essa área do cérebro está ligada à aprendizagem e é, normalmente, uma das primeiras a serem afetadas pelo Alzheimer, mesmo antes do aparecimento de sintomas como perda de memória e dificuldade de orientação. “Nossas descobertas são novas porque mostram que os efeitos do risco genético podem, até certo ponto, serem aparentes muito antes de um diagnóstico clínico de demência”, diz Rachana Tank, principal autora do estudo. “Essas descobertas podem levar a uma forma melhor e mais informativa de avaliar o risco genético de doença de Alzheimer do que os métodos atuais, que consistem em indagar sobre o histórico familiar de demência. Com o novo método, é possível melhorar muito o diagnóstico e as opções de tratamento no futuro”, acredita. O fato de a avaliação ser mais acessível também é um destaque. “Embora exames de imagens cerebrais sejam caros e os testes de cognição trabalhosos, medir o PRP é relativamente simples e barato”, afirma Paul Morgan, diretor do Instituto de Pesquisa de Sistemas Imunitários da Universidade de Cardiff, no Reino Unido. “A medição do risco de Alzheimer pelo PRP, isoladamente ou em combinação com marcadores sanguíneos é, portanto, bem adequada para a triagem populacional”, acredita. Limitação Para Derek Hill, professor de imagens médicas da Universidade College Londres, o estudo traz uma limitação importante. “A escala do estudo é impressionante. Mas os resultados não demonstram que o escore de risco poligênico possa ser usado de forma confiável para detectar e, quando os tratamentos adequados estiverem disponíveis, tratar pessoas com risco de doença de Alzheimer. Para isso, seria necessário um estudo muito diferente. Seria necessário estudar as pessoas ao longo do tempo e ver quão bem o escore de risco pode prever as pessoas que realmente desenvolvem a doença”, alerta. Rachana Tank diz que está ciente dessa limitação, mas espera que o estudo escocês abra caminho para pes-quisas que acompanhem os voluntários por décadas para, assim, estabelecer uma relação mais sólida. “Embora não possamos dizer, com certeza, que essas diferenças genéticas sejam sinais precoces de demência per se, é importante que façamos mais pesquisas nessa área”, observa. Frase “Nossas descobertas são novas porque mostram que os efeitos do risco genético podem, até certo ponto, serem aparentes muito antes de um diagnóstico clínico de demência” Rachana Tank, principal autora do estudo. Variante ligada também à covid Um gene antiviral que impacta o risco de doença de Alzheimer e da covid-19 grave foi identificado por uma equipe de pesquisa liderada pela Universidade da Califórnia em Los Angeles. Os pesquisadores estimam que uma variante do gene OAS1 aumenta o risco de doença de Alzheimer em cerca de 3% a 6% na população como um todo, enquanto versões relacionadas ao mesmo gene elevam a probabilidade de resultados graves de covid-19. As descobertas, publicadas na revista Brain, podem abrir a porta para novos alvos para o desenvolvimento de drogas ou o rastreamento da progressão das doenças, afirmaram os autores. Mais precisão na estimulação cerebral Pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon, nos EUA, descobriram uma maneira de tornar a estimulação cerebral profunda (ECP) mais precisa, resultando em efeitos terapêuticos que duram mais que o obtido por métodos disponíveis atualmente. O trabalho, liderado por Aryn Gittis, avançará significativamente o estudo da doença de Parkinson, diz um artigo publicado na revista Science. A ECP permite que pesquisadores e médicos usem eletrodos finos implantados no cérebro para enviar sinais elétricos à região que controla o movimento. É uma forma comprovada de ajudar a estabilizar os movimentos involuntários do corpo, mas os pacientes devem receber estimulação elétrica contínua para obter alívio dos sintomas. Se o estimulador for desligado, os sintomas retornam imediatamente. Gittis, professora e docente do Instituto de Neurociências, disse que a nova pesquisa pode mudar isso. “Ao encontrar uma maneira de intervir para que se tenha efeitos duradouros, nossa esperança é reduzir muito o tempo de estimulação, minimizando os efeitos colaterais e prolongando a vida útil da bateria dos implantes.” Desde 2017, a cientista vem tentando encontrar uma estratégia que seja mais benéfica para os pacientes. A equipe liderada por ela obteve sucesso, em ratos, com um novo protocolo de ECP que usa rajadas curtas de estimulação elétrica. Nesse método, os pesquisadores têm como alvo subpopulações neuronais específicas no globo pálido, uma área do cérebro nos gânglios da base, que recebem os pequenos pulsos. Gittis disse que os pesquisadores vêm tentando, há anos, encontrar maneiras de fornecer estimulação de uma maneira específica para o tipo de célula e, só agora, se conseguiu. Com as curtas rajadas de estimulação elétrica no globo pálido, o estudo mostrou que uma rápida intervenção tem duração muito maior do efeito desejado: o controle dos movimentos involuntários. A expectativa, agora, é iniciar, em breve, um estudo randomizado e duplo-cego de pacientes com doença de Parkinson idiopática. Eles serão acompanhados por 12 meses para avaliar as melhorias nos sintomas motores da doença e na frequência de eventos adversos.