Sem direitos básicos, mulheres de regiões remotas da Amazônia pedem socorro

Municípios em áreas remotas lidam, diariamente, com a falta de infraestrutura e difícil acesso a outras regiões da Amazônia. Reportagem do Correio acompanhou de perto a luta da população feminina da faixa de fronteira, chefes de família e privadas de direitos básicos

Sem direitos básicos, mulheres de regiões remotas da Amazônia pedem socorro

(crédito: Luana Patriolino / D.A Press)

A falta de acesso ao básico nos estados ao Norte do país coloca em xeque a política social que o governo federal afirma investir ao longo dos anos. A população que habita a faixa de fronteira, em regiões remotas da Amazônia, lida diariamente com a escassez de médicos, remédios, materiais de higiene e alimentos. O Correio acompanhou de perto a luta dessas pessoas pela sobrevivência. Para as mulheres, que, em casa, muitas vezes, atuam como principal força econômica, a situação é ainda mais preocupante em relação à saúde, já que carecem também de atendimento durante a gestação. A reportagem esteve nas regiões que contam com o apoio de bases militares para o atendimento de necessidades básicas. Desde 1985, a atenção às comunidades ganhou o apoio institucional das Forças Armadas por meio do programa Calha Norte. Segundo o governo, são atendidos, atualmente, 442 municípios das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e pouco mais de 15 milhões de pessoas beneficiadas, com recursos que passam de R$ 1 bilhão. População, porém, lida com outros problemas que vão de falta de infraestrutura a dificuldade de acessos básicos. Na cidade de Tefé, no Amazonas, a 522 km de Manaus, a feira municipal é a principal força econômica da população local. Ao todo, 195 bancas abastecem, atualmente os mais de 60 mil habitantes da cidade do interior do Amazonas. O comércio passou por uma reforma nos últimos anos e teve a cobertura reforçada, além da melhor distribuição dos espaços. Na cidade, uma grande preocupação é a pandemia da covid-19. A comerciante Sandra da Silva Alves, 35 anos, perdeu os pais — que eram donos de uma barraca de frutas na feira — para o novo coronavírus. A família está há mais de 40 anos vendendo produtos no local. “Chego sempre aqui para ajudar por volta das 5h. Geralmente, atendo os clientes mais antigos que compravam com os meus pais. Antes da pandemia, tínhamos mais turistas. Agora, não vem mais ninguém”, lamenta Sandra. PUBLICIDADE Há mais de 20 anos, Arlene Rodrigues de Azevedo, 48 anos, trabalha vendendo frutas e legumes. Os produtos são do sítio da família. Os filhos ajudam plantando e vendendo no comércio. Somente na casa de Arlene, são 10 bocas para alimentar, entre filhos e netos. A renda é composta pelas vendas e pelo trabalho do companheiro — que é vigia noturno em uma escola municipal. “Estamos em uma crise muito forte. O nosso dinheiro diminuiu e as coisas estão ficando cada vez mais caras”, lamenta. Assim como outros comerciantes, toda a família da agricultora foi infectada pela covid-19. “Ficamos muito doentes. Até mesmo os meus netinhos, que ainda são bebês. Mesmo assim, eu tive forças para cuidar deles nesse momento difícil”, relembra Arlene. A poucas bancas dali, trabalha sozinha Nilza Cavalcante dos Santos, 35 anos. Filha de agricultores, ela cresceu na roça e aprendeu com os pais tudo o que sabe sobre o plantio. Os quatro filhos e o marido ficam em casa, cuidando das tarefas e do sítio, enquanto a mulher vende goma de tapioca e farinha de mandioca na Feira Municipal de Tefé. “Eles dizem que têm vergonha de vir para cá”, lamenta. A rotina é puxada. Nilza chega para trabalhar às 5h e só sai às 18h, quando o galpão já está fechando. “Minha vida é de agricultora. Desde quando eu era novinha, meu pai me ensinou tudo. Quando saio daqui, ainda tenho outra jornada que é de organizar a casa e cuidar da minha família”, conta. O administrador da feira, Mazinho Moraes, destaca o impacto negativo da pandemia para os comerciantes. “Tivemos um lockdown pesado. Isso impactou muito na feira porque, no auge, não atendíamos nem 50% do que era quando estava normal. Foi um impacto muito negativo. A feira representa 70% dos comércios de Tefé”, afirma. Segundo Moraes, cerca de 4 mil pessoas circulam diariamente no local durante o pico da safra. “A feira representa um pouco da história de Tefé. Tudo aqui vai passando de geração em geração, de pai para filho. Procuramos fazer melhor para tornar o local mais atrativo”, diz. Povo Iauaretê No ponto de confluência entre os rios Uaupés e Papuri, no Amazonas, na divisa com a Colômbia, os indígenas do povoado multiétnico Iauaretê vivem com poucos recursos para manter a tradição. Cerca de 3 mil indígenas de 8 etnias habitam o local: Tukano, Tariano, Dessanos, Piratapuia, Uananos, Tuiucas, Rupda e Rupdér. O povoado é localizado na região de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Da etnia Tariana, a agricultora Erica Maria de Lima Rodrigues, 27 anos, está no segundo mês de gravidez. Morando na região, ela afirma que lida com a falta de produtos básicos para o dia a dia e para a criação dos outros dois filhos. “A gente passa muita necessidade aqui, de médicos, de dentistas. Às vezes, eles nem vêm. Nesta gestação, eu tive um início de aborto, mas, felizmente, não aconteceu nada. Sem os médicos, temos os nossos benzedores e o apoio do Exército”, conta. A pandemia do novo coronavírus também foi cruel na comunidade. A família de Erica foi contaminada neste ano. “Passamos muito mal, tivemos falta de ar. Quase não tivemos assistência, tudo aqui é muito longe. Mas o que segurou mesmo foi a vacina e os nossos remédios da natureza”, relata. “Tem muita coisa que não encontramos por aqui e tem que esperar as pessoas trazerem. Tem que pedir em São Gabriel (outro município). Não tem como comprar fralda, lenço umedecido, bater ultrassom”, lamenta. Também da etnia Tariana, Maria Gonçalves Cruz, de 62 anos, é uma das indígenas que cresceu no povoado. Trabalhando com artesanato desde os 9 anos, ela sobrevive com a venda dos produtos e a aposentadoria que recebe do governo. Com o pouco que ganha, ainda ajuda o filho universitário, que vive em Manaus. “Eu estudei até o ensino fundamental e depois comecei a fazer um curso de artes plásticas. Mas desisti porque o meu filho conseguiu passar no vestibular e eu parei para ajudá-lo”, conta. “Está tudo muito difícil, mas para nós, que somos indígenas, é ainda pior”, pontua. Atuando na região há 2 meses, a médica rondoniense Gilksânnia Moura se desdobra para ajudar a comunidade Iauaretê. Instalada no polo base para receber os pacientes, a especialista em saúde indígena também visita vilas do local regularmente. “Tenho que ser um pouquinho de tudo. Ginecologista, obstetra, pediatra, cardiologista e médico da família”, afirma. Na avaliação da médica, as mulheres são as mais impactadas pela falta de estrutura da região. “As indígenas são muito fortes. Eu vejo uma força tremenda para ser mãe, cuidadora da casa e agricultora com recursos muito limitados”, observa. Com uma equipe de cinco pessoas, a médica afirma ser difícil não contar com uma boa estrutura para resolver os problemas da comunidade. “A gestante, por exemplo, não têm condição de fazer uma ultrassonografia obstétrica no caso de alguma complicação. Não temos um raio-x e falta, às vezes, medicamento. Então, contamos com outra cidade para mandarem via aérea e poder dar essa assistência”, ressalta. Desde a década de 1980, funciona na área o 1º Pelotão Especial de Fronteira (1º PEF), com a premissa de colocar em prática ações cívico-sociais em defesa da comunidade. As iniciativas são aderentes aos objetivos do Calha Norte. Cerca de 63 militares atuam no local em prol dos indígenas e protegendo a fronteira. No total, são 21 pelotões, uma companhia e um destacamento localizados ao longo da faixa de fronteira no Norte do país. As tropas chegam a, inclusive, a incorporar em seus efetivos indígenas locais. A reportagem viajou a convite do Ministério da Defesa